Sinos na Ortodoxia Russa
História
Após a cristianização da Rússia de Kiev por volta do século X, o uso de sinos foi gradativamente consolidado, juntamente com a utilização de um outro instrumento de percussão, o chamado semantron, de origem grega. Hoje em dia, embora muitas igrejas tenham dado preferência aos sinos em detrimento do semantron, a prática de utilizar ambos sobrevive, principalmente em mosteiros.
A arte de fundição de sinos atingiu seu apogeu no século XVIII. Desse período, podemos citar dois sinos, o Sino Tsar (Tsarsky Kolokol) e o Sino da Dormição, ambos criados para o Campanário de Ivan, o Grande, em Moscou. O campanário originalmente seria recipiente do Tsarsky, mas o gigantesco sino, até hoje o maior já criado, foi danificado num incêndio e permanece ao lado da torre até os dias atuais. O Sino da Dormição, também de tamanho notável, foi utilizado em seu lugar.
Com a perseguição ao Cristianismo ocorrida na União Soviética, múltiplos sinos foram destruídos e sua produção se tornou intermitente. Depois da queda do mundo socialista, a produção de sinos experienciou um grande pico, em razão da reconstrução de múltiplas igrejas.
Teologia
Além das funções usuais dos sinos, que também são comuns ao ocidente, como expressar alegria e chamar os fiéis para os serviços litúrgicos, os sinos na Ortodoxia Russa possuem razões de existência teológicas, com seu uso excedendo o prático e alcançando o espiritual.
De fato, o som dos sinos é considerado “escritura sonora”, da mesma forma que os tradicionais ícones são considerados “escritura visual”. Em razão da visão dessa arte como “iconografia acústica”, a igreja considera a função do tocador de sinos como uma posição instituída, que requer um serviço litúrgico especial. Uma boa analogia seria a instituição de um acólito no ocidente, mas um acólito “sineiro”.
Na tradição ortodoxa, os sineiros são chamados zvonar (de zvon, que significa um toque em qualquer sino). Antes de soar os sinos, os zvonar vão ao padre (ou ao igumen, no caso de um mosteiro) para serem abençoados.
Ainda, por essa importância litúrgica, a utilização de qualquer mecanismo automático para a execução da atividade é proibido.
Conhecido vídeo do toque dos sinos na Catedral de Alexander Nevsky, NJ, EUA.
De forma semelhante aos ocidentais, os ortodoxos possuem certos serviços litúrgicos que apontam para a importância desses instrumentos, como a benção das fundações de um campanário (e da construção, após ser completada), a benção e nomeação dos sinos em honra de um santo e por fim a crisma de um sino. Essa crisma, juntamente com a aspersão de água benta e a utilização de incenso, formam o conjunto dos “ritos iniciais” da vida de um sino, assim como um fiel.
Um aspecto teológico interessante é o seu simbolismo com a proclamação do Evangelho, completo com a utilização do sematron. Tradicionalmente, o sematron, de som baixo e simples, simboliza os profetas do Antigo Testamento. Após o sematron, os sinos, de som alto e passíveis de escuta a longas distâncias, são soados, simbolizando a proclamação do Evangelho pelo mundo.
Acima: Monge toca o semantron e, logo após, os sinos no mosteiro de Santa Catarina, no Sinai.
Técnica
Com respeito à técnica de toque desses sinos, a tradicional prática é seu soamento apenas pela movimentação do badalo, conservando a estrutura do sino estacionária. Para permitir o soamento de diversos sinos, um customizado sistema de cordas é desenhado, com todas convergindo aproximadamente no meio da coleção de sinos, para utilização do zvonar.
Embora várias dessas cordas sejam utilizadas com as mãos, é comum para sinos maiores a utilização de pedais para o puxar das cordas. Além disso, é importante ressaltar que as cordas são mantidas sempre tensionadas, para facilitar o toque dos badalos. Em algumas torres, apenas um leve empurrão numa corda provoca o toque do sino correspondente.
Uma curiosidade da técnica é sua total ausência de melodia planejada, diferenciando-se do carrilhão, que cede lugar a uma prática polirrítmica.
“A fundação do soar de sinos na Ortodoxia não está na melodia, mas sim no ritmo, com sua dinâmica intrínseca, e na interação dos timbres de [vários] sinos."
Tipos de toque
As regras litúrgicas da Ortodoxia Russa cobrem todos os mais variados tipos de toque dos sinos, associados às mais variadas situações e tempos litúrgicos, como dias úteis, domingos, dias santos, dias de penitência, Quaresma e Páscoa. Esses diferentes tipos diferem-se entre si pelo emprego de diferentes conjuntos de sinos, além dos diferentes ritmos que podem ser tocados.
Tradicionalmente, os sinos num campanário são divididos em três conjuntos de acordo com sua altura: Zazvonny (sinos sopranos), Podzvonny (altos) e por fim, Blagovestnik, os sinos baixos.
A diversidade de toques anteriormente mencionada é categorizada em quatro conjuntos distintos, Blagovest, Perebor, Perezvon e Trezvon.
Blagovest
O toque denominado blagovest (”anunciação”, “boas notícias”) tem como forma o badalo de um único sino de baixa altura, com o objetivo de alertar aos fiéis o início de um serviço litúrgico. Esse toque inicia com três badalos separados por pausas levemente longas, seguidos de badalos mais rápidos e, por fim, mais três badalos separados por pausas longas.
Faixa de abertura do álbum Severnyi Afon, do Coro dos Irmãos do Mosteiro de Vaalam. O blagovest pode ser ouvido nos dois primeiros minutos.
Segundo as regras litúrgicas, o tempo de duração do blagovest deve ser o tempo necessário para ler o salmo 118, ou o salmo 50 (conhecido no ocidente por Miserere) cerca de doze vezes.
Este toque de anunciação ainda pode ser subdividido em dois tipos, o obykhovenny (”normal”), mais rápido, e o postny (”quaresmal”), mais lento. Nas chamadas Grandes Festas (com as Solenidades sendo um análogo ocidental), o blagovest é tocado no maior blagovestnik disponível, além de ser mais rápido, alto e longo do que o obykhovenny.
Geralmente o conjunto de sinos baixos possui cinco sinos, do mais grave ao mais agudo, para execução do blagovest para determinadas ocasiões.
| Nome | Tradução | Ocasião |
|---|---|---|
| Prazdnichny / Torzhestvenny | Festal / Triunfal | Grandes Festas |
| Polyeleyny | Misericordioso | Polyeleos |
| Voskresny | Dominical | Domingos |
| Budnichny / Prostodnevny | Diário / Ferial | Dias úteis (férias) |
| Maly / Postny | Pequeno / Quaresmal | Quaresma |
Perebor
Como toque funerário, o perebor possui um tom mais triste.
Cada sino do campanário é tocado uma vez, do menor para o maior, num ritmo lento e constante. Depois disso, todos os sinos são tocados simultâneamente. Esse ciclo pode-se repetir quantas vezes for necessário, até que o corpo do falecido seja retirado do templo e enterrado.
Cada toque do perebor só deve ser executado quando o som do sino anterior tiver-se extinguido naturalmente. Esse toque funerário possui como simbolismo a vida de uma pessoa terrena, de seu nascimento até sua morte, com o toque simultâneo simbolizando sua morte.
Uma execução do Perebor no monastério de Duchovny Dom, Oregon, EUA, 2018.
Perezvon
O perezvon é executado pelo toque de cada um dos sinos, do maior para o menor, com um toque simultâneo finalizante. A sequência de toque do maior para o menor pode ser executada diversas vezes, desde que a finalização seja com o toque simultâneo mencionado.
Essa prática simboliza a chamada kenosis (”esvaziação”) da Segunda Pessoa da Trindade pela Encarnação, sendo executada duas vezes no ano, mais precisamente, na Grande Sexta-Feira e no Grande Sábado (no ocidente, seus equivalentes seriam a Sexta-Feira Santa e o Sábado Santo), nas ocasiões da narração da morte e enterro de Jesus.
Trezvon
O trezvon (”triplo-badalo”) se configura no badalo rítmico de múltiplos sinos, utilizando todos os conjuntos. Sendo o estilo mais alegre, não possui uma ordem de toque fixa como os outros estilos, ficando esta a cargo da criatividade do sineiro.
Geralmente é dividido em três estágios, com o começo contando com a marcante presença dos três toques do blagovestnik, simbolizando a Trindade, o meio, executado em “versos” que podem diferenciar-se em ritmo e dinâmica, repetidos três vezes, e o final. Durando aproximadamente o tempo que leva para ler o salmo 50, é alongado durante festas.
Uma variação menor, o dvuzvon (”duplo-badalo”), é executada diminuindo a quantidade de versos repetidos de três para duas vezes.
Trezvon executado durante a Páscoa na catedral de Alexander Nevsky, NJ, EUA, 2023.
Ocasiões
Os tipos de toques acima podem ser combinados e tocados em diferentes momentos do mesmo serviço litúrgico ou particularmente ao longo do ano, como o perezvon. Embora certas regularidades existam, é difícil contabilizar todas as variações e tradições existentes sobre o toque de sinos.
Mesmo assim, algumas ocasiões notáveis que podem ser citadas são: a Vigília da Noite, um serviço especial, a Divina Liturgia, serviço litúrgico análogo à Missa, Semana Santa, Páscoa, dias de festa, funerais, 9 de maio (comum na Rússia, por ser o Dia da Vitória) e em algumas ocasiões, em performances da Abertura solente para o ano de 1812, de Tchaikovsky.