Trabalho e Energia
As origens do trabalho
O que é trabalho? O conceito de trabalho na Física está intimamente ligado aos conceitos de energia e força, também. Para ilustrar a origem dessa curiosa grandeza, vamos imaginar uma situação simples: um bloquinho num plano inclinado.

Acima podemos ver um plano inclinado utilizado em universidades do século XVIII (Imagem sob CC-BY-SA, via Wikimedia Commons).
Vamos imaginar que no sopé deste plano inclinado temos um bloquinho que é lançado por uma mola. Desconsiderando o atrito e todas as outras forças que não sejam a força peso, o bloquinho avança com uma velocidade inicial $\overrightarrow{v_o}$ que diminui ao longo do tempo.
É possível ver que este corpo está em um movimento retilíneo uniformemente variado e, por isso, podemos utilizar as equações:
Deduzindo a Equação de Torricceli pela substituição da segunda equação na primeira e rearranjando os termos, chegamos em duas expressões bastante úteis. A primeira é o que chamamos de constante do movimento, uma quantidade que não varia ao longo do tempo de execução do movimento, que pode ser útil na resolução de alguns problemas. Já a segunda, mais interessante para nosso objetivo, é uma relação entre a variação da velocidade e a variação do espaço.
Multiplicando por $m$ em ambos os lados, a massa do objeto, chegamos numa segunda relação.
Uma grandeza relacionada diretamente com a força aplicada sobre o objeto e seu deslocamento está ligada com a variação de uma quantidade nova que depende tanto da massa quanto do módulo de sua velocidade. Essa grandeza chama-se trabalho de uma força.
De fato, essa quantidade própria do movimento do corpo que é variada pelo trabalho é chamada energia cinética $(K)$, podendo ser também escrita em função do momento: $\dfrac{p^2}{2m}$.
Perceba que, ao montar um gráfico $P \times x$, essa grandeza corresponde à área sob a curva. Isso será de especial motivação para o teorema a seguir.
Teorema Trabalho-Energia Cinética
O teorema trabalho-energia cinética declara que o trabalho realizado por uma força é a variação da energia cinética de um corpo, exatamente o que acabamos de vislumbrar, com um único diferencial: essa conclusão é válida para qualquer força, inclusive uma força variável, ao contrário do caso base que exploramos, com uma força constante no tempo.
Supondo o trabalho $W$ de uma força $F$ como a seguinte integral, podemos desenvolvê-la para encontrar o resultado esperado.
Perceba que o passo $(2)$ foi possível por uma aplicação direta do princípio fundamental da dinâmica (2ª Lei de Newton) e a substituição da variável de integração (espaço para velocidade) foi indispensável.
Por fim, perceba que ao final chegamos numa expressão em que estamos integrando o momento ao longo da variação da velocidade. Esse fato levanta a denominação do Teorema como a "forma integral" da Segunda Lei de Newton.
Potência
Definimos a grandeza potência como a taxa da realização de trabalho ao longo do tempo de uma força. Como foi demonstrado pelo Teorema anterior, é possível também descrevê-la como a taxa de transferência energética de uma força.
Durante o ensino médio, entramos em contato com a chamada potência média, definida por:
Entretanto, a chamada potência instantânea, ou simplesmente potência, é expressa como a derivada do trabalho em relação ao tempo. Pelas propriedades do Cálculo, podemos também expressar o trabalho como a integral da potência.
Energia Potencial e a Conservação da Energia
Uma motivação para o conceito de energia potencial vem de um dos passos que tomamos para a definição da energia cinética. Vamos revisitá-lo, mais precisamente, a constante de movimento.
Ao multiplicarmos ambos os membros pela massa do corpo, $m$, chegamos na expressão:
Perceba que os termos que dependem da velocidade são a nossa conhecida energia cinética, mas e os outros dois? Essa nova grandeza não depende da velocidade de um corpo, mas sim de sua posição.
Dessa forma, é possível reescrever essa equação em termos de suas funções $T(v)$ e $U(x)$. A essa soma, chamamos energia mecânica total do sistema, e à grandeza que depende da posição, energia potencial.
Esse princípio, enunciado na equação acima, é chamado de conservação da energia, com os sistemas que o obedecem chamados sistemas conservativos. Vale mencionar que em hipótese alguma a energia é "destruída" se ela não for conservada, ela apenas se dissipa para fora do sistema estudado.
Dessa base também é possível definir o que chamamos de forças conservativas, isto é, forças cuja atuação depende apenas da posição de um corpo e nunca de sua velocidade. Para essas forças, é possível traçar a relação:
Por exemplo, sabendo que a força peso é escrita da forma $F=mg$, sua energia potencial associada (gravitacional) pode ser encontrada a partir de algumas operações. Vamos dizer que estamos comparando dois pontos, $x_1$ e $x_2$, a uma altura $x$ um do outro.
Dessa forma, definindo $x_2 - x_1 = h$, nossa altura, conseguimos demonstrar a tão conhecida $U(h) = mgh$.
Retornando à distinção entre forças conservativas e não-conservativas (também chamadas de forças dissipativas), uma diferença notável entre as duas encerra-se no trabalho: o trabalho de uma força conservativa independe do caminho atravessado pelo móvel, mas apenas das suas posições iniciais e finais. O contrário é dito das dissipativas, em que a "trajetória", a "história" do móvel importa.
Como exemplos de forças conservativas, podemos citar, além da força peso, a força elástica e a força elétrica.
Gráficos de estabilidade
É possível representar um sistema físico a partir de um gráfico de sua energia potencial em função de sua posição, com tal representação sendo extremamente útil na análise de algumas situações, permitindo a extração de diversas informações.
Um exemplo inicial simples é o de um objeto em queda livre (ou lançamento vertical).

Gráfico retirado do livro OpenStax University Physics (CC-BY-NC-SA).
Perceba que o gráfico é uma linha reta de inclinação $mg$, com sua altura sendo sua energia potencial em uma dada posição e a "altura restante" até a reta assinalada sua energia cinética, com a soma dos dois comprimentos constante para todo $y \in [y_0, y_{max}]$.
A partir do gráfico é possível encontrar a altura máxima, por exemplo:
Essa mesma relação pode ser explorada para encontrar a velocidade inicial, $v_0$, necessária para alcançar essa altura máxima. Vale notar se $v_0$ é a velocidade necessária para alcançar a altura máxima, $-v_0$ é a velocidade de encontro com o solo.
Um outro exemplo, um pouco mais complexo, que pode ser analisado é o chamado sistema massa-'mola' simples, sem atrito nem qualquer tipo de força dissipativa.

Um sistema massa mola. Por Chetvorno, via Wikimedia Commons.
Esse sistema é interessante por nos introduzir pela primeira vez ao chamado poço de potencial. Observando seu gráfico de energia potencial em função da posição do objeto conectado à mola, é possível deduzir todas as informações do sistema anterior.

Gráfico retirado do livro OpenStax University Physics (CC-BY-NC-SA).
O "poço de potencial" mencionado é a concavidade do gráfico: um sistema massa-mola com uma energia potencial $E$ nunca irá poder ter uma oscilação maior do que $x_{max}$, com todas as posições possíveis oscilando nessa parábola.
Referências
- Playlist de Física 1 da USP formada por aulas do prof. Dr. Marcelo Martinelli (Acesse aqui).
- LING, S. J. et al. University physics. Houston, Texas: Openstax, Rice University, 2018. v. 1 (Acesse aqui).