O Plano
Sistema de coordenadas
Ao escolher um plano formado por retas perpendiculares entre si, comumente chamadas de $x$ e $y$, e muni-lo com uma métrica, definindo uma certa distância da origem sobre as retas — intersecção das retas, denominadas eixos — como a unidade, formamos um sistema de coordenadas para este plano escolhido, formando um plano cartesiano. A construção recebe este nome em homenagem a René Descartes, filósofo e matemático francês, um dos fundadores da Geometria Analítica.
A partir dos números $x$ e $y$, chamados de coordenadas, é possível construir duas retas cuja intersecção é um ponto $P$ no plano construído. Representando $P = (x,y)$, formamos uma correspondência entre os padres ordenados dos números reais — cujo conjunto é o $\mathbb{R}^2$ — e os pontos do plano.
Dados dois pontos $P(x_2,y_2)$ e $Q(x_2,y_2)$, é possível construir um triângulo retângulo e mostrar que, por meio do Teorema de Pitágoras, a distância entre esses dois pontos escolhidos é de
O ponto médio, que situa-se equidistante de dois pontos $A$ e $B$ é, por sua vez, encontrado a partir da média aritmética das coordenadas dos dois pontos considerados, isto é:
Vetores
Podemos interpretar os pontos do plano como vetores, definindo com isto a grandeza do módulo do vetor (também conhecida como intensidade, magnitude...) denotada por $|\vec{v}|$ ou $||\vec{v}||$. Dessa forma, dado um vetor $\vec{P} = (x,y)$, temos que $||\vec{P}|| = \sqrt{x^2 + y^2}$.
Duas operações com vetores podem ser inicialmente definidas, a soma e a multiplicação por escalar. Sendo $\vec{a} = (a_x, a_y)$ e $\vec{b} = (b_x, b_y)$, com $k \in \mathbb{R}$:
A operação da soma de vetores possui algumas propriedades. São elas:
A operação de multiplicação por escalar também possui algumas propriedades. São elas:
Ainda podemos denominar $(-1) \cdot \vec{a} = -\vec{a}$ como o vetor oposto de $\vec{a}$. Possuem módulos iguais e sentidos opostos, de forma que sua soma é o vetor nulo.
Além disso, todo vetor que possui magnitude um é chamado "vetor unitário" ou "versor", podendo ser denotado por um "circunflexo", por exemplo, $\hat{n}$.
Produto escalar e projeção de vetores
O produto escalar entre dois vetores $\vec{a}$ e $\vec{b}$, também chamado "produto interno", é denotado por $\vec{a} \cdot \vec{b}$ e lido como "'a' interno 'b'". Uma notação alternativa pode ser escrita utilizando parênteses estilizados: $\vec{a} \cdot \vec{b} = \langle \vec{a}, \vec{b} \rangle$.
Esta operação é definida como a soma do produto coordenada a coordenada dos vetores. Em notação de somatório, podemos escrever:
Esta operação também pode ser escrita alternativamente como:
Com $||a||$ e $||b||$ sendo as magnitudes de cada vetor e $\cos{\theta}$ o ângulo formado entre os dois vetores considerados.
Esta escrita alternativa origina-se da desigualdade de Cauchy-Schwartz,
que, ao adaptada, produz a desigualdade
De fato, como existe apenas um único ângulo $\theta$ tal que o valor de seu cosseno esteja entre $-1$ e $1$, pode-se escrever
Multiplicar ambos os membros por $||\vec{a}|| \cdot ||\vec{b}||$ produz a expressão que queríamos encontrar. Aplicar $\cos^{-1}$ em ambos os membros também produz uma maneira de encontrar o ângulo entre dois vetores a partir de seu produto interno e de suas normas.
Esta operação, o produto escalar, possui algumas propriedades:
Além disto, é possível projetar um vetor sobre o outro por meio da operação de produto interno. Projetar um vetor sobre o outro, neste caso, é encontrar a "sombra" de um vetor $\vec{a}$ num vetor $\vec{b}$, a componente deste vetor que se encontra sobre o outro que, ao adicionada a outro componente perpendicular, produz o vetor $\vec{a}$.
De fato, a projeção de $\vec{a}$ sobre $\vec{b}$ caso $\theta \lt 90°$ é dada por
com a expressão precisando ser adaptada para $\theta \ge 90°$:
Uma outra consequência da desigualdade de Cauchy-Schwartz é a chamada desigualdade triangular,
Retas
Sendo $\vec{v} = (a,b)$ um vetor não-nulo e $A = (x_0, y_0)$ um ponto do plano cartesiano, podemos dizer que um ponto $P(x, y)$ só pertence à reta que contém $A$, na direção de $\vec{v}$, se
Esta equação é conhecida como a equação vetorial da reta, podendo também ser expressa em forma de coordenadas,
com esta igualdade correspondendo a um sistema de equações, cujas equações são denominadas equações paramétricas da reta.
Por exemplo, as equações
são as equações paramétricas da reta que passa pelo ponto $(1,2)$ e possui a direção do vetor $(2, -3)$. Dessa forma, todos os pontos $(1+2t, 2-3t)$, com $t \in \mathbb{R}$ pertencem à reta imaginada.
Equações cartesiana, geral e reduzida
Dadas as equações paramétricas apresentadas anteriormente, podemos eliminar o parâmetro $t$ ao multiplcar a primeira equação por $b$ e a segunda por $a$ e, logo após, subtraindo as duas, produzindo:
Perceba que o segundo membro da equação é constante e, portanto, podemos reescrever esta equação:
Esta equação produzida após a eliminação do parâmetro $t$ é chamada de equação cartesiana da reta que, por sua vez, pode ser adaptada tomando $A = b$, $B = -a$ e $C = -c$ para formar a equação geral da reta:
A expressão recebe este nome por poder exprimir qualquer reta no plano cartesiano e de que qualquer reta no plano poder ser escrita por meio de uma equação geral.
Considerando um ponto $A = (x_0, y_0)$ que satisfaça a equação geral de uma reta, podemos adaptá-la para o formato
que é a equação geral de uma reta que passa pelo ponto $A$ e possui a direção do vetor $(-B, A)$.
Uma outra adaptação da equação cartesiana é a chamada equação reduzida, produzida após reescrever $m = \dfrac{b}{a}$:
Notavelmente, $m$ nesta equação equivale a $\tan{\theta}$, com $\theta$ sendo o ângulo de intersecção entre a reta e o eixo das abscissas. Em razão disto, o parâmetro $m$ é denominado coeficiente angular ou declividade da reta, com $k$ recebendo a alcunha de coeficiente linear.
Distância entre um ponto e uma reta
Dados um ponto $P(x_0, y_0)$ e uma reta $r$ de equação $y = mx + k$, a distância entre o ponto $P$ e a reta $r$, denotada por $d(P, r)$, é definida como o comprimento da perpendicular que une $P$ a $r$.
Circunferências
Assim como retas, também podemos representar circunferências por equações. Desta forma, considerando um ponto $C = (x_0, y_0)$ — o centro da circunferência — e um vetor $A = (x_0 + r, y_0)$ com $r$ sendo o raio da construção geométrica e $t$ o ângulo formado entre um certo ponto $P$ pertencente à circunferência e o vetor $A$, podemos escrever que todo ponto $P$ cujas coordenadas satisfaçam o sistema
pertence à circunferência. Essas equações, por sua vez, são chamadas de equações paramétricas da circunferência. Adaptando-a, de forma semelhante ao que foi feito no caso das linhas retas, podemos escrever a chamada equação cartesiana da circunferência:
Por fim, de forma ainda mais ampla, a equação geral da circunferência é dada por:
Com $D, E, F \in \mathbb{R}$.
Referências
- LIMA, G.; SILVA. Geometria analitica. Rio de Janeiro. 2015.